5 de out de 2012

Preservar o Caráter Local da Igreja


Visto que as igrejas de Deus são locais, temos de tomar cuidado a fim de lhes preservar o caráter local, bem como a esfera e os limites locais. Uma vez que uma igreja perde um desses itens, ela deixa de ser bíblica. Duas coisas demandam especial atenção se queremos salvaguardar a natureza local das igrejas.

Em primeiro lugar, nenhum apóstolo deve exercer controle sobre uma igreja em caráter oficial. Isso é contrário à ordenação de Deus e destrói a natureza local da igreja, impondo-lhe o cunho de ministro extraoficial. Nenhum apóstolo tem a autoridade de estabelecer uma igreja particular em lugar algum. A igreja pertence à localidade, e não ao obreiro. Quando as pessoas são salvas por meio de um homem, elas pertencem à igreja no lugar em que vivem, e não ao homem por meio de quem foram salvas, nem à organização que ele representa. Se uma ou mais igrejas são fundadas por certo apóstolo, e ele exerce autoridade sobre elas como se pertencessem a ele ou à sociedade dele, essas igrejas tornam-se facções, pois não é na base da diferença de localidade que elas se separam de outros cristãos (salvos por meio de outros apóstolos), e, sim, na base da diferença de quem foi usado para salvação. Assim os apóstolos se tornam cabeças de várias denominações, e o âmbito deles torna-se o âmbito de suas respectivas denominações, enquanto as igrejas sobre as quais eles exercem controle tornam-se facções, cada qual com a característica particular do seu líder, e não de uma igreja local.
 
Nenhum obreiro pode exercer controle sobre uma igreja ou atrelar a ela o seu nome ou o nome da sociedade que representa. A desaprovação divina sempre incidirá sobre “a igreja de Paulo”, ou “a igreja de Apolo”, ou ainda “a igreja de Cefas”. Na história da Igreja frequentemente ocorreu que , quando Deus deu luz especial ou experiência a uma pessoa, essa pessoa ressaltou essa verdade em particular a ele revelada por ele experimentada, e reuniu à volta de si pessoas que apreciavam o seu ensinamento. O resultado disso é que o líder, ou a verdade que ele ressaltava, tornou-se a base da comunhão. Assim as facções se multiplicaram. Se o povo de Deus pudesse apenas ver que o objeto de todo o ministério é a fundação de igrejas locais, e não o agrupamento de cristãos ao redor de um indivíduo, ou de uma verdade, ou de uma experiência, ou ainda de uma organização específica, então a formação das facções seria evitada. Nós, que servimos ao Senhor, devemos estar dispostos a abandonar o nosso apego por todos aqueles a quem ministramos, e deixar que todos os frutos de nosso ministério passem para as igrejas locais inteiramente governadas por irmãos locais.

Temos de ser escrupulosamente cuidadosos em não deixar a cor da nossa personalidade destruir o caráter local da igreja, e devemos sempre servir a igreja, sem jamais controlá-la. Um apóstolo é um servo de todos e mestre de ninguém. Nenhuma igreja pertence a um obreiro; pertence à localidade. Se os que tem sido usados por Deus através da história da Igreja vissem claramente que todas as igrejas de Deus pertencem às suas respectivas localidades, e não a um obreiro ou a uma organização usada para fundá-las, então não teríamos tantas denominações hoje. (...) Toda e qualquer “igreja” formada tendo por centro uma missão certamente será algo mais do que local, pois onde quer que haja um centro, há também uma circunferência; e se o centro da igreja é uma missão, obviamente a circunferência não é a esfera bíblica da localidade, mas a esfera da missão. Isso claramente carece da característica de uma igreja, e só pode ser considerada uma facção. No propósito de Deus, Jesus Cristo é o centro de todas as igrejas, e a localidade é a circunferência. 

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O problema é que a coisa é tão sorrateira, que quando abrem os olhos, já se tornaram tão corruptos que não conseguem mais deixar de se-lo. (https://www.facebook.com/adelson.acs/posts/3728624741363)
O curioso é que, normalmente, as igrejas locais por fim também se tornaram facções, isto é, algo separado dos demais irmãos na localidade. A relação entre "a igreja local" e os irmãos que estão nas denominações pode ilustrar o fato, na medida em que os primeiros querem que os outros abandonem suas divisões e passem a dar o testemunho da unidade, enquanto isso não ocorre, então haverá um grupo "que dá testemunho da unidade" e vários grupos que não dão esse testemunho - o que, no final das contas, representam apenas facções (até mesmo uma facção pela unidade), isto é, grupos separados. 

Desta forma, o "testemunho" da localidade deveria ser melhor esclarecido à luz das escrituras. O que é, de fato, ser um? Se ser um é concordar com determinadas doutrinas, então, "ser um" também será pretexto para se dividir. Agora se "ser um" for estar em Cristo, então estamos próximos de algo sobrenatural, algo que está além do entendimento humano, algo exclusivo de Deus, isto é, algo que só Ele pode fazer e promover e ninguém mais. Desta forma, todos os que são um com o Pai e com o Filho também são um entre si, isto é, são o próprio testemunho na cidade. 

Se isso for a revelação das Escrituras (em especial Efésios 4 e João 17), então podemos passar para o próximo ponto: quem pode determinar quem está na unidade e quem não está? Se isso for possível através da concordância doutrinária, novamente voltamos para as facções: "o resultado disso é que o líder, ou a verdade que ele ressaltava, tornou-se a base da comunhão. Assim as facções se multiplicaram". Agora, se somente o Espírito Santo que sonda mentes e corações for a pessoa habilitada para saber e determinar quem está ou não na unidade com o Pai e com o Filho, então podemos (eu penso que devemos) voltar-nos só para essa comunhão maravilhosa pelo Espírito. Doutrinariamente, as denominações são facções? Sim, enquanto organizações humanas; espiritualmente, todos os filhos de Deus que estão nas denominações estão fora da comunhão com o Pai e com o Filho? Obviamente que não; espiritualmente, todos os que estão pretendendo "dar testemunho" da unidade estão na comunhão com o Pai e com o Filho? Possivelmente não, a menos que todos esses vivam 24 h no espírito. Então me pergunto, qual a utilidade dessas coisas? O melhor não seria que tivéssemos primeiramente comunhão no Pai e no Filho e, posteriormente, tivéssemos comunhão uns com os outros, não importa onde estejamos (em igrejas locais, em denominações, em grupos livres etc...)? Não quero de maneira nenhuma anular a força de 1 Coríntios no que diz respeito à unidade e à condenação às divisões. Essa verdade é importante para o Corpo, assim como todas as demais verdades reveladas. Entretanto, a maior e suprema verdade é Cristo, é estar nEle, Ele é o caminho, e o caminho é estar nessa comunhão. Por um lado, o Corpo deve repelir todo "organismo" estranho que atente contra sua saúde espiritual, mas por outro lado, esse mesmo Corpo só se torna real enquanto está ligado à videira, à Comunhão do Pai e do Filho, pelo Espírito. Enquanto isso não for real em nós, corremos o risco de estar doutrinariamente "vivos" e espiritualmente "mortos".

Se cada um de nós procurarmos viver na realidade da comunhão divina, teremos também comunhão uns com os outros e Deus mesmo irá nos aproximar mais e mais uns dos outros até que essa comunhão evolua para uma edificação em amor e esse edificação em amor será o testemunho.


Fonte: (Nee, W., A Vida Cristã Normal da Igreja)

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